4/23/2021

Obstáculos no setor energético: Desafios tanto para os jovens quanto para as empresas

Beatriz Galvão, Gabriel Passos, Gilberto Azevedo, Kelly Angelim, Marcela Vincoletto Rezende e Raffaela Zandomenego

1.           INTRODUÇÃO

O setor energético mostrou um ritmo de expansão, mudança e transição durante os últimos anos. E, mesmo que a pandemia esteja afetando significativamente seu desenvolvimento, as previsões para este segmento ainda são promissoras. Apesar disso, por ser composto majoritariamente por profissionais que atuam na área há muitos anos, esse setor têm apresentado algumas dificuldades quando o tema é a inserção de jovens profissionais no mercado, o que se mostra como um contraponto em relação à sua expansão (BRASIL, 2020).

Uma das dificuldades levantadas por esses jovens é a falta de informação acerca de muitas das possíveis áreas de atuação dentro do setor, tanto por suas grades curriculares não abrangerem o desenvolvimento de conhecimentos específicos sobre a área de energia, bem como a falta de formação de conhecimento contínua. Além disso, com base no número de programas oferecidos levantados pelos autores, há a dificuldade de seleção de jovens para vagas de empregos pelas empresas do setor, as quais buscam jovens profissionais com características e formações muito específicas para participação dos processos seletivos.

A falta de jovens no setor fica mais evidente quando são realizadas ações específicas para incentivar a inclusão dos mesmos nesse mercado, como, por exemplo, o programa Shell Iniciativa Jovem, com um edital específico chamado “Iniciativa de Energia”, que busca incentivar jovens a desenvolver soluções criativas para as demandas do mercado energético por meio de startups (ABERJE, 2020). Outra ação relevante é a do Grupo Energisa, juntamente com o Serviço Social da Indústria (Sesi), o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), que desenvolveram o Programa Geração de Energia, no qual jovens em situação de vulnerabilidade social de Rondônia e Acre receberão qualificação profissional para trabalhar no setor (CANAL ENERGIA, 2020). E outro programa importante é o “Jovens de Energia” da EnergyC, que visa o desenvolvimento da liderança jovem por meio de mentorias com profissionais renomados no setor.

Porém, com uma demanda crescente por mão de obra qualificada para trabalhar no setor energético, esses esforços ainda não são suficientes. Por isso, fica evidente dois problemas centrais: a dificuldade do jovem em se capacitar e encontrar oportunidades para um mercado que não é abordado na sua graduação; e, para as empresas, encontrar jovens com as características mínimas necessárias para atuar na área de energia tem se mostrado uma tarefa difícil.

 2.       VALIDAÇÃO DO PROBLEMA

Com o objetivo de validar os problemas supracitados, fez-se uma análise das grades curriculares de algumas universidades brasileiras, buscando entender se as competências necessárias para ingressar no setor energético estão sendo abordadas de maneira significativa. Também foi realizada uma pesquisa interativa (enquete) via Instagram com jovens que possuem interesse no setor energético e uma busca por vagas abertas para estágios, trainees e empregos, averiguando quais competências são exigidas nesses processos de seleção. Além disso, foi dado um parecer por parte das empresas atuantes no mercado de energia no Brasil, como da GPE (Global Participações em Energia) e Cosern/Neoenergia.

A análise das grades curriculares foi feita em cursos de interesse no setor energético em 5 universidades de familiaridade com os autores: Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Universidade Federal do Ceará (UFC).

           Foi observado, pelos autores, que os cursos de graduação que são direcionados para área de energia abrangem várias áreas do setor, principalmente os de Engenharia de Energia, Engenharia de Produção Elétrica e Engenharia Elétrica. Em relação a outras engenharias e formações correlatas, percebeu-se que há uma defasagem na abrangência do tema, visto que grande parte são não-obrigatórias e se quer fazem parte do currículo pleno dos cursos. A partir disso, fica evidente que as competências técnicas fornecidas aos estudantes não são suficientes, principalmente quando comparadas com as demandas do mercado de trabalho.

Acerca da pesquisa no Instagram percebeu-se que a maioria dos jovens, principalmente das áreas de engenharia e correlatas, possuem grande interesse em ingressar no mercado de energia. Outra característica percebida é que jovens que tiveram maior aproximação com o setor, seja por terem participado de projetos de extensão voltados para o ramo energético, ou por fazerem graduações como Engenharia de Energia, se sentem mais capacitados para atuar nesse mercado. Porém, estudantes de outras engenharias e graduações análogas, os quais não vivenciaram essas mesmas oportunidades, expressaram justamente o contrário, visto que suas universidades não abordam de maneira suficiente as temáticas do setor, assim como apresentam dificuldades em encontrar oportunidades extras de capacitações.

Após sondagem em sites de empresas e de vagas disponíveis para o mercado energético foram encontradas poucas ofertas no setor para o ano de 2020. Em pesquisa, apenas 4 empresas abriram vagas com foco em energia com perfil para trainees e estagiários, todas diretamente em seus respectivos portais. Já em sites de anúncio de vagas, o termo “energia” aparece como sinônimo de proatividade e/ou produtividade e em vagas totalmente fora do setor energético. Além disso, a busca apontou uma discrepância entre as exigências para o preenchimento das vagas com a realidade dos cursos e dos universitários interessados na área, criando uma cobrança além da experiência dos jovens.

Em relação ao parecer das empresas contactadas, para a GPE, na qual foi estabelecido um contato com um dos seus diretores para checagem das informações, foi apresentada uma maior dificuldade para suprir vagas voltadas para as áreas técnicas. Profissionais desses departamentos precisam continuar estudando, porque é necessário desenvolver muitos projetos e buscar soluções para diferentes problemas complexos com muita frequência. Foi evidenciado também que a formação desses profissionais precisa ser sólida, exigindo mais do que habilidades comportamentais.

De forma complementar, a visão do ex-superintendente da Cosern/Neoenergia mostrou que, apesar de não ser exigido experiências profissionais prévias, as maiores dificuldades estavam nas habilidades comportamentais, capacidade de aprendizado e facilidade de adaptação. Segundo ele (cujo o nome está sendo preservado), muitos candidatos não se preocupavam em se desenvolver em termos de conhecimento, buscando um crescimento mais rápido do que a experiência permite, sem pensar muito sobre o futuro.

Além disso, tanto para a GPE, quanto para a Cosern/Neoenergia, o setor elétrico é muito formal, principalmente por trabalhar em torno de regras regulatórias e legislações específicas. Por isso, se o jovem já tivesse um conhecimento prévio e amplo das cadeias que envolvem o setor seria excelente e visto como um diferencial, diminuindo o tempo necessário para capacitá-lo após seu ingresso na corporação.

3.        CONCLUSÃO E RELEVÂNCIA

Com todas as mudanças pelas quais o setor está submetido no contexto de transição energética, entende-se que uma maior inserção do jovem neste momento é uma oportunidade significativa de troca com profissionais que já estão familiarizados com o mercado. Enquanto empresas, agências e órgãos públicos desempenham responsabilidade social e agem para o desenvolvimento do setor, os jovens têm contato com o mercado e amadurecem de forma a enfrentar os desafios que encontrarão.

No início de sua carreira profissional, o jovem está aberto a aprendizados e esta é uma oportunidade para instigar valores e diretrizes que preparem esta mão-de-obra para o que se tornará um mercado profissional mais capacitado e competitivo. Nesse âmbito, enxerga-se ainda a longo prazo a possibilidade de crescimento e enfrentamento mais igual com o mercado internacional.

Além disso, as empresas buscam cada vez mais por jovens capacitados tanto por conhecimentos técnicas como comportamentais. Assim, fica evidente a necessidade de resolver a lacuna existente entre as competências oferecidas durante as graduações e as que realmente são cobradas pelo mercado, tanto para atender as demandas dos jovens profissionais, quanto das empresas do setor energético nacional.

4.        REFERÊNCIAS

ABERJE. Shell Brasil reúne startups de energia do Iniciativa Jovem. Disponível em: http://www.aberje.com.br/shell-brasil-reune-startups-de-energia-do-iniciativa-jovem/. Acessado em 29/05/2020

BRASIL. Ministério de Minas e Energia – MME, Empresa de Pesquisa Energética – EPE. Plano Decenal de Expansão de Energia 2029 – PDE 2029. Brasília: MME/EPE, 2020. Acesso em 31/05/2020. Disponível em: https://cutt.ly/zyOMDPC.

CANAL ENERGIA. Projeto da Energisa vai qualificar mil jovens para o mercado de trabalho. Disponível em: https://canalenergia.com.br/noticias/53118963/projeto-da-energisa-vai-qualificar-mil-jovens-para-o-mercado-de-trabalho. Acessado em 29/05/2020

CLICK PETRÓLEO E GÁS. Estágio e Trainee - Vagas Atualizadas. Disponível em: https://clickpetroleoegas.com.br/category/estagio-e-trainee/. Acessado em 29/05/2020.

GOMES, V. Panorama geral do setor elétrico e governança setorial. Disponível em: https://www.aneel.gov.br/documents/655804/14752877/Panorama+geral+do+setor+el%C3%A9trico+e+governan%C3%A7a+setorial_Victor.pdf/43046afc-c5ce-8f77-0f68-597e1dcfdfa0. Acessado em 30/05/2020.

KENOBY. Trainee Energisa 2020. Disponível em: https://jobs.kenoby.com/traineeenergisa. Acessado em 29/05/2020.

ONS. Estágio e Trainees. Disponível em: http://www.ons.org.br/paginas/sobre-o-ons/trabalhe-no-ons/estagio-e-trainees. Acessado em 29/05/2020

VAGAS. 126 vagas de emprego para energia. Disponível em: https://www.vagas.com.br/vagas-de-energia. Acessado em 29/05/2020


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